Em geral, os trabalhos de Tatá Aeroplano se dividem entre discos hedonistas, como Boate Invisível (2023), e registros que destacam o lado contemplativo do músico, caso do pandêmico Delírios Líricos (2020). O mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor paulista, Lendas e Sol (2026, Discos Voadores), pode até pender para esse segundo grupo, porém segue uma trilha diferente em relação a outras criações do artista.
Composto em quartos de hotel, durante as apresentações de Aeroplano com o show Andarilho Urbano, em que subia ao palco no formato voz e violão, o registro de oito faixas parte de uma abordagem reducionista para explorar com sobriedade os tormentos do artista. São composições marcadas por amores incertos e momentos de solidão, mas que chamam a atenção pela clareza das ideias e profunda exposição do músico.
A Experiência Auditiva de Lendas e Sol
“E a solidão me pegou”, repete Aeroplano na introdutória faixa-título, composição que apresenta parte dos elementos que orientam a experiência do ouvinte durante toda a execução do disco. Acompanhado pelos músicos Bruno Buarque, Dustan Gallas e Junior Boca, o cantor mergulha em uma obra talvez simplista do ponto de vista instrumental, mas que fortalece justamente o componente central de Lendas e Sol: a palavra.
A Força da Palavra
Exemplo disso pode ser percebido em Palavra Cantada Memória. Entre interpolações nada discretas com a obra de Cazuza e trechos metalinguísticos, a composição simplesmente cessa o uso dos instrumentos para destacar aquilo que é cantado por Aeroplano. É como se o artista, pela primeira vez em duas décadas de carreira, se revelasse por completo, despido do véu lisérgico e dos delírios cósmicos dos antigos trabalhos.
Naturalmente, essa mudança de abordagem tem seus riscos, com Aeroplano investindo em um trabalho de ritmo lento, por vezes arrastado e estruturalmente repetitivo, rompendo com a completa fluidez dos discos anteriores. Entretanto, sempre que começa a perder fôlego, o músico surpreende com alguma composição menos contida, como a divertida Help Help Help, que destaca o lado mais acessível do cantor.
Entretanto, é no equilíbrio entre esses dois extremos que o álbum cresce. Em Mistérios Que Sopram Vapor No Final, por exemplo, Aeroplano mantém firme o ritmo da obra sem comprometer a densidade dos versos que celebram a permanência dos sonhos, da imaginação infantil e dos mistérios que continuam guiando a existência. Um harmonioso jogo estilístico, lírico e sonoro que revela uma nova faceta do músico paulista.
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