No final da década passada, quando Steve Lacy foi formalmente apresentado ao grande público, boa parte das publicações do período citavam o estilo de produção minimalista e como o artista indicado ao Grammy criava suas canções usando apenas um estúdio portátil em seu smartphone. O problema é que, quase dez anos depois e hoje com acesso a recursos, o músico continua desenvolvendo sua obra de maneira similar.
Terceiro e mais recente trabalho do músico norte-americano em carreira solo, Oh Yeah? (2026) talvez seja o exemplo máximo disso. Sequência ao material entregue em Gemini Rights (2022), álbum catapultado por conta do enorme sucesso de Bad Habit no TikTok, a obra pouco ou nada evolui em relação aos discos que o antecedem. É como se o artista reproduzisse o mesmo R&B básico desde a estreia com Apollo XXI (2019).
Em geral, são canções que se sustentam a partir de uma base minimalista de sintetizadores, batidas sempre calculadas e guitarras que até esbarram na obra de artistas como Prince e Lenny Kravitz, mas logo pedem desculpas e seguem o caminho mais confortável. Mesmo quando se arrisca, como nos momentos iniciais da eletrônica Nice Shoes / In Your World, Lacy rapidamente cria desvios que conduzem o disco ao ordinário.
Ainda assim, Oh Yeah? tem seus momentos de destaque. Em Pure Color, por exemplo, Lacy deixa de lado a estrutura prosaica do restante da obra para mergulhar em um trip-hop atmosférico que evoca nomes como Portishead e Massive Attack de forma autoral, destacando a presença sutil de Erykah Badu. A própria The Feeling, canção que segue a estrutura melódica de Bad Habit, ressalta o capricho do músico na produção.
A questão é que, para cada boa composição, há sempre uma contraparte formada por duas ou mais faixas que acentuam a mediocridade do trabalho. Em Is It Cool?, por exemplo, é a tentativa superficial de refletir sobre relacionamentos ao lado de SZA. Já em Doom, é a pobreza escancarada das rimas (“I’m a big baby suckin’ on big titties / Karma’s a bitch and I bet she’s pretty”) e as guitarras que buscam emular o Weezer.
Independentemente da direção em que aponta, prevalece em Oh Yeah? a sensação de que o músico busca apenas recriar a fórmula e o fenômeno em torno de Bad Habit. Entretanto, assim como qualquer marca que tenta participar de uma trend no TikTok, falta ao trabalho o essencial: a espontaneidade. Os componentes básicos estão ali, quase explícitos, porém exauridos em forma e conteúdo justamente pelo próprio criador.
Precisa de serviços relacionados a música? Entre em contato agora mesmo com nossa equipe contato ou fale direto comigo Domlean!
Ouça também:
O post Crítica | Steve Lacy: “Oh Yeah?” apareceu primeiro em Música Instantânea.
