Crítica | Arca: “XXXXX”

Com o lançamento de KiCk i (2020) e seus diferentes desdobramentos, Alejandra Ghersi, a Arca, conseguiu um feito inédito: manter a própria identidade experimental e abraçar uma parcela ainda maior de ouvintes. Entretanto, quem espera por uma possível continuação desse repertório em XXXXX (2026, XL Recordings), novo álbum de inéditas da produtora e cantora venezuelana, encontrará uma obra completamente distinta.

Exploração Musical

Inicialmente pensado como uma mixtape aos moldes de projetos como &&&&& (2013) e @@@@@ (2020), o registro destaca o caráter exploratório da artista venezuelana. Longe do reggaeton avant-garde dos álbuns anteriores, Arca se aventura na construção de um repertório que borra possíveis limites entre gêneros, usa o vocal como um instrumento disforme e se aventura em meio a composições profundamente paisagísticas.

Ritmos e Atmosferas

O próprio andamento rítmico do registro em seus momentos iniciais parece pensado para afastar o ouvinte mais apressado. Em Heart, por exemplo, são estudos de sintetizadores que evocam o trabalho de Oneohtrix Point Never. Já em Willow, retalhos de batidas e vozes buscam respirar em meio a ambientações soturnas, conceito reforçado em Cinch, música que parece vagar pelo cosmos, destacando a base etérea do material.

Acessibilidade e Complexidade

É somente com a chegada de Fxck, já na segunda metade do disco, que o registro ganha forma e destaca o lado acessível de Arca. Entretanto, a produtora venezuelana em nenhum momento parece interessada em facilitar para o ouvinte. Sempre que investe em canções mais palatáveis, como Taconeando e Grip, a artista revela uma contraparte que perverte qualquer traço de conforto e conduz o trabalho para outras direções.

A Beleza da Corrupção Estética

Sobrevive justamente nesse contínuo exercício de corrupção estética e estrutural a real beleza do material montado por Arca. Enquanto faixas como Enraptured fascinam pelo caráter onírico, outras, como Finisher e Everything, chamam a atenção pelas texturas, ruídos e o uso de batidas sempre fragmentadas. É como se, a cada novo movimento, a artista mudasse de direção, bagunçando os rumos da obra de forma intencional.

Um Exercício Criativo Fascinante

Ainda que muitos dos caminhos percorridos por Arca não levem a lugar algum, como nas abstratas Raver e Throb, o esforço da produtora em tensionar a experiência do ouvinte faz de XXXXX um exercício criativo fascinante. Próximo e ao mesmo tempo distante de obras como Mutant (2015) e o homônimo disco de 2017, o álbum mostra que, longe do conforto e da previsibilidade, a artista continua a jogar com regras próprias.

Precisa de serviços relacionados a música? Entre em contato agora mesmo com nossa equipe contato ou fale direto comigo Domlean!

Fonte: https://musicainstantanea.com.br