Crítica do Álbuns Cicatrizes do Futuro de Deafkids

Em um cenário intoxicado por ilusões de poder e manipulações sistêmicas, Douglas Leal e Marian Sarine encontraram as bases para o repertório de Cicatrizes do Futuro (2026, Neurot Recordings). Este é o mais recente álbum de estúdio do Deafkids, sucessor do colaborativo Sem Esperanças (2025), trabalho assinado em parceria com o Test, destacando o caráter exploratório e a ferocidade que orienta o som da dupla fluminense.

Análise das Faixas

Inaugurado por Parasita, o trabalho diz a que veio logo nos minutos iniciais. São vozes submersas, bases processadas e o uso sempre destacado da bateria. Exemplo disso fica ainda mais evidente na composição seguinte, Cicatrizes, onde Leal e Sarine brincam com a sobreposição dos elementos, um direcionamento que conduz as criações do Deafkids desde os primeiros registros em estúdio.

Exploração de Novos Ritmos

A diferença está na forma como a dupla intensifica o diálogo com os ritmos e a cultura latina, base para a faixa seguinte, Profecia. Essa busca por novas possibilidades não interfere na entrega de músicas ainda íntimas dos antigos trabalhos da banda, como é o caso de Simulacro, canção que amplia o escopo rítmico do disco sem necessariamente corromper o acabamento industrial e a urgência punk que move o Deafkids.

Equilíbrio de Forças

Sobrevive justamente nesse equilíbrio de forças o estímulo para algumas das melhores canções do registro. É o caso de Advertência, música que combina a percussão ritualística adotada pela banda com a habitual base sintética do projeto. A própria Reflexo, vinda em sequência, torna isso ainda mais explícito, com Leal e Sarine investindo em um som ainda mais fragmentado e sujo, como um remix torto da faixa que a antecede.

Degradação dos Elementos

Essa degradação dos elementos se reflete durante toda a porção final do trabalho. Em Feitiço, por exemplo, são efeitos, texturas e vozes saturadas que garantem maior profundidade à faixa. Já em Possessão Coletiva, a lenta sobreposição dos instrumentos e a bateria marcada trazem uma versão menos urgente e ainda mais interessante de tudo aquilo que o Deafkids desenvolve durante a primeira metade do material.

Síntese Criativa

A própria Em Transe, no encerramento do disco, funciona como uma síntese criativa do registro, com Leal e Sarine resgatando uma série de componentes rítmicos e instrumentais espalhados ao longo do material. Estruturas que se repetem, mas a todo momento encontram um elemento de ruptura, proposta que não apenas amplia os limites do trabalho, como destaca a capacidade da dupla em tensionar a própria criação.

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Fonte: https://musicainstantanea.com.br